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Entrevista: Dora Kaufman Fala sobre IA e Transformação Digital

A Inteligência Artificial (IA) é uma tecnologia que tem melhorado a eficiência e a produtividade de muitas maneiras e, por isso, sua adoção vem crescendo e ocupando um papel fundamental na competitividade das empresas pelo mundo. Apesar dessa relevância, o Brasil está atrasado neste campo em relação a outros países, tanto na área da pesquisa quanto nas aplicações práticas envolvendo IA. Segundo dados levantados no relatório AI Readiness Index 2019, feito pela Oxford Insights, o Brasil está em 40º lugar entre 192 países no que diz respeito a soluções de Inteligência Artificial. A previsão é de que a implementação da tecnologia movimentará US$ 15 trilhões mundialmente até 2030.


Nesta entrevista exclusiva para a ConnectData, Dora Kaufman, professora-pesquisadora dos impactos sociais da Inteligência Artificial do Programa de Pós-Graduação de Tecnologias da Inteligência e Design Digital (TIDD/PUC-SP), fala sobre o uso de IA aqui no Brasil, como ela tem modificado a rotina e a dinâmica das empresas, benefícios gerados pela IA para o setor da construção e como a pandemia acelerou os processos em curso, dentre eles, transformação digital.


Confira a entrevista na íntegra:


ConnectData - As novas tecnologias estão cada vez mais presentes no nosso dia a dia. Como você vê a introdução e o uso de IA e aqui no Brasil hoje?


Dora Kaufman - Em geral o mercado brasileiro está na fase de digitalização, ou seja, automação dos processos internos, o que representa a primeira fase da Transformação Digital. Temos muitas barreiras, tais como deficiência de infraestrutura, ausência de ecossistemas de inovação e de mão-de-obra especializada/capacitada, carência de fontes de investimento e financiamento, distanciamento entre universidade-mercado, falta de política pública, dentre outras.


Nas empresas que já adotaram a IA, no Brasil e no mundo, predomina a automação inteligente de processos internos e o atendimento virtual aos clientes por meio dos chatbots. Temos experiências locais implementadas no varejo, que inclui o varejo financeiro (bancos), de atendimento virtual aos clientes que, em parte, usa a IA, e algum uso nos processos internos, mas ainda muito restrito às lideranças setoriais (financeiras e/ou tecnológicas).


A capacidade de previsão mais assertiva da técnica de deep learning, reduz custos e aumenta a eficiência da operação qualquer que seja o setor de atividade, além disso oferece interfaces mais efetivas com os usuários/clientes/consumidores. No entanto, o processo de implementação não é simples, requer grande volume de dados, rotular os dados, adequar à regulamentação principalmente no que tange aos dados pessoais, além das limitações intrínsecas à técnica como a não-explicabilidade (“caixa preta”) que restringe a implementação em setores mais sensíveis, como o setor de saúde.


Esses desafios são universais. Dois estudos são ilustrativos: a) Estudo do MIT: mais de 80% dos líderes de negócios não entendem os dados e a infraestrutura necessários para a adoção bem sucedida da IA; e b) Pesquisa global da IBM: as três principais barreiras para a adoção da IA são cultura corporativa, base de dados restrita e de baixa qualidade, e carência de profissionais qualificados.




ConnectData - De que forma a Inteligência Artificial tem modificado a rotina e a dinâmica das empresas?


Dora Kaufman - Nas empresas que adotaram as tecnologias de IA observam-se ganhos significativos de redução de custo e aumento de eficiência, ambos benefícios correlacionados. Qualquer tecnologia dissemina se atende à alguma demanda, necessidade, desejo da sociedade. A IA que permeia a maioria das implementações atuais é o modelo estatístico de probabilidade baseado em dados denominado deep learning, que é uma técnica empírica de aprendizado de máquinas que vem dando certo. Sua principal contribuição é prever a probabilidade de um evento ocorrer e quando, com níveis de acurácia média em torno de 80-90%. Na gestão de qualquer negócio, até mesmo em qualquer atividade ou ação humana, a previsão é crítica; antecipar eventos reduz os riscos ao oferecer a oportunidade de agir antecipadamente, evitando danos maiores. Neste sentido, a IA, ao permitir previsões assertivas, tem impacto positivo nas empresas. Contudo, auferir seus benefícios demanda mudanças nos processos e na cultura corporativa, não é uma “agenda de TI”.


ConnectData - Quais transformações que já podemos ver aqui no Brasil?


Dora Kaufman - Não visualizo transformações positivas relevantes no Brasil atual. A COVID-19 acelerou a crise política-econômica-social anterior, ampliou exponencialmente os desafios a serem equacionados que ainda dizem respeito a questões básicas e, para alguns segmentos da população, questões de sobrevivência. Estamos muito defasados em relação ao resto do mundo, particularmente aos países líderes como EUA e China, no que tange à transformação digital, à adoção das tecnologias digitais e, mais ainda, às tecnologias de IA. O ponto positivo é que, aparentemente, a IA “entrou no radar”, a mídia tem dado certa visibilidade e o público tem se interessado. Tenho visto e participado de muitas lives/webinars abordando diversos aspectos da IA, como impactos no mercado de trabalho, na educação e questões éticas, especialmente com a aprovação recente pelo Senado da entrada em vigor da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).


ConnectData - A construção civil é considerada uma das áreas mais atrasadas quando o assunto é digitalização e uso de novas tecnologias. Como você vê o processo de transformação digital desse setor e quais os impactos positivos que IA pode proporcionar para o segmento?


Dora Kaufman - Os pioneiros no uso de IA no setor constatam uma significativa redução de custos e de acidentes de trabalho, além de uma melhora na performance dos cronogramas (otimizados para sequenciar tarefas e atingir prazos finais). Mesmo diante de comprovados benefícios, a adoção em larga escala depende de capacidade de investimento em pessoal especializado, na alteração dos processos e na aquisição de equipamentos apropriados. O ritmo ainda é relativamente lento vis-à-vis os demais setores da economia, mas há tendências emergindo como soluções integradas para a execução no “campo”. A IA auxilia no monitoramento do comportamento dos operários por meio de reconhecimento e classificação de imagens captadas localmente, e os dados geram informações úteis para programas de treinamento. Outra vantagem é a possibilidade de analisar dados coletados por sensores distribuídos ao longo da obra que permitem identificar padrões, agilizando a tomada de decisão relativa a custos, manutenção preventiva, tempo de inatividade não planejado, dentre outros fatores. Como vocês acompanham, existem startups brasileiras no setor desenvolvendo métodos inovadores e de fácil aplicação a obras de médio e grande porte. O futuro próximo, contudo, não é dos mais promissores porque poucos construtores têm recursos necessários e base de dados adequada para implementar as tecnologias de IA.


ConnectData - Essas inovações ocorrem a todo instante e vêm mostrando para as empresas que não tem outro caminho: é preciso adotar as novas tecnologias. Na sua opinião, o que pode acontecer com as empresas que não seguirem esse caminho?


Dora Kaufman - A inteligência artificial é a tecnologia de propósito geral do século XXI. Numa economia direcionada pelos dados (Data-driven economy), a IA está na base dos novos modelos de negócio. O volume de dados mundo afora cresce exponencialmente, contendo informações preciosas sobre a sociedade, sobre equipamentos, sobre o território, sobre o clima. Os dados pessoais, por exemplo, “conhecem" nossas preferências, o que compramos, onde circulamos, com quem nos relacionamos, nossas emoções, dentre muitas outras informações preciosas. O modelo de deep learning, ao extrair as informações contidas nos dados transformando-as em informações úteis, é fator crítico com impacto direto na capacidade competitiva. A empresa que faz uso dessas tecnologias, potencialmente, tem mais possibilidades de oferecer ao mercado produtos e serviços assertivos (além de reduzir custos e aumentar a eficiência); em contrapartida, as empresas que não o fizerem tendem a perder competitividade, ou seja, perder espaço num mercado extremamente dinâmico, em contínua transformação. A inovação sempre foi crítica para a sustentabilidade de um negócio, e hoje a inovação passa pela adoção da IA (inovação disruptiva, não incremental).


ConnectData - Você acha que a pandemia do novo coronavírus acelerou ainda mais o processo de transformação digital?


Dora Kaufman - A COVID-19 pegou o mundo, e particularmente o Brasil, num momento de crise - política, econômica, moral, ética - em que predomina a insegurança e a incerteza sobre o futuro; talvez isso justifique o clima (ou desejo?) de que “o mundo não será o mesmo pós-COVID-19”. Parece-me precipitado apostar em mudanças radicais, prefiro concordar com a visão de que a pandemia acelerou os processos em curso, dentre eles, sem dúvida, a Transformação Digital. Mas, como disse anteriormente, no Brasil a maioria do mercado ainda está na fase de automatizar os processos básicos (digitalizar a operação interna), que é a primeira fase da Transformação Digital. A quarentena impôs a urgência de incorporar tecnologias digitais, de abrir ou incrementar canais de venda digitais, de inaugurar ou aperfeiçoar a relação digital com todos os stakeholders (investidores, clientes, consumidores, parceiros, fornecedores). Sem nenhum aviso prévio, fomos todos “jogados" na vida digital para nos comunicar, informar, consumir, entreter, trabalhar, socializar. Esse novo ambiente tem reflexos direto nas empresas, que não têm outra alternativa senão reagir...mas, nada disso é simples, gerar resultado real e sustentável requer planejamento, investimento, qualificação ou requalificação de equipes, mudança na cultura corporativa.


Dora Kaufman é pós-doutora COPPE-UFRJ (2017) e TIDD PUC-SP (2019), doutora pela ECA-USP com período na Université Paris – Sorbonne IV. Autora dos livros “O Despertar de Gulliver: os desafios das empresas nas redes digitais” (2017), e “A inteligência artificial irá suplantar a inteligência humana?” (2019). Professora convidada da FDC e professora PUC-SP.



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